Livro finalista do Prêmio Jabuti 2021, categoria Economia Criativa
Co-autora do livro sobre a restauração como um norte necessário para a economia do carbono neutro e traz o Brasil como protagonista de um novo potencial – aquele em que a natureza preservada está no centro da criação de valor econômico.
Livro que faz revisão histórica sobre a relação do homem com a natureza (com grande atenção aos povos originários) para falar da economia do futuro, trazendo casos de sucesso de cidades e países que se voltaram para a produção de energia de matriz renovável no mundo (que mostra como ela dá autonomia e transforma as comunidades).


Este livro foi um desafio incrível. Primeiro porque Jorge Caldeira, historiador que foi meu colega na Revista Brasileiros e eu pensamos diferente. Somos daqueles amigos que concordam em discordar de alguns conceitos gerais, destacando muito que ambos tem uma disposição para a humanidade muito grande. Disposição para pensamentos diversos, democracia e entendimento. Depois porque fomos conectados ao mapa que ilustra a capa deste livro pela economista Julia Sekula, nova geração — em todos os sentidos — com uma vivência de mundo fantástica e um pensamento fora do padrão de onde ela transita – o mercado financeiro.

Segundo, fui convidada para escrever um livro que narra a mudança de um paradigma econômico.Adam Smith e Karl Marx entendiam a natureza como fonte inesgotável de recursos. Tivemos a pretensão de narrar a mudança do paradigma econômico num cenário que nos aproximamos de uma urgência ambiental. Num cenário de ascensão do conservadorismo — que aliás é fruto de uma tentativa de barrar as transformações que são inevitáveis neste contexto.
Buscamos casos, números gráficos MUITO interessantes que narram um mundo encaminhando-se para uma economia de baixo carbono, com energia limpa enquanto toada. Mercados inteiros se transformando. As majors investindo em tecnologia limpa e inovação, as de óleo e gás desvalorizando. Ou seja, a mudança parece estar acontecendo.
O mapa que Julia trouxe fala de um potencial imenso que o Brasil tem economicamente: potencial de NATUREZA.
Vou fazer o meu resumo sobre o livro, nos primeiros capítulos, buscamos uma história e numa tecnologia avançadíssima — que é a cosmovisão dos povos originários para dizer: desenvolvimento sem contemplar a natureza não é possível. Alavancamos outra tecnologia: a do feminino. No final de semana, Sônia Guajajara disse em suas redes sociais: A ancestralidade sempre ensinou que o sentido da vida é o coletivo. Narramos o sentido de mãe natureza, na filosofia, história, psicanálise. O que pode ser ampliado se pensarmos que o capitalismo usa de mecanismo de opressão para diferenciar e explorar as pessoas. Então é uma ode ao feminino enquanto saída dessa lógica perversa e obsoleta.
Depois contamos casos mundo a fora — Alemanha, EUA, Índia — de como as metas para uma economia de baixo carbono e iniciativas individuais envolvendo energia transformam de fato o cenário e o futuro.


Isso tudo para dizer, que quando fazemos uma imersão no Brasil, na história das fontes de energia que temos aqui, vislumbramos uma oportunidade única. Falar de conservação, energia limpa economia de baixo carbono hoje tem a ver com falar de uma frente ampla para defender o estado democrático de direito, tem a ver com uma visão sobre o passado, sobre uma visão do que estamos fazendo, da história como se deu, como os governos democráticos das últimas duas décadas transformaram o Brasil — que hoje colhe frutos tendo um mercado desenvolvido no que diz respeito a inovação.
Quando iniciamos a pesquisa, iríamos contar a história do bioma Pantanal nesta perspectiva — já que os mapas dos grandes expedicionários sempre narravam aquela terra como o paraíso. Literalmente. Era o encontro dos quatro rios, que só com Raposo Tavares veio abaixo. Viajei em dezembro de 2019 no que era o bioma mais conservado do país – 85% do bioma intacto, muito por sua complexidade. Hoje (2020), ouvimos a notícia de que só nas queimadas de janeiro a agosto perdemos 12% do bioma, que 19% da sua cobertura vegetal foi queimada. Isso num cenário em que o Ministério do Meio Ambiente gastou menos de 1% dos seus recursos neste ano. Ou seja desmonte. Um desmonte cruel — que tantos chamam apropriadamente de ecocídio.





Então esse livro a gente faz uma volta ao entendimento de que a terra e a humanidade não estão separados. E essa compreensão é ancestral grande tecnologia indigena. É o único caminho possível para o desenvolvimento pós covid: CONTEMPLAR A NATUREZA NOS PLANOS E METAS DO ESTADO. INCENTIVAR AS INICIATIVAS INDIVIDUAIS. RECONHECER OS AGENTES LOCAIS E ESTIMULAR O DIALOGO. Já que os interesses são imensos.
Yuval Noah Harari disse no El País, no início da pandemia: o verdadeiro antídoto de uma epidemia é a cooperação. No Pantanal entrevistamos mais de 40 pessoas. Iríamos finalizar o livro em março, mas a COVID interrompeu qualquer perspectiva nesse sentido. Acredito que este livro faz coro como tantas vozes para revelar que precisamos defender a democracia para pensar em futuro, que para pensar em futuro precisamos conservar e contemplar a natureza em todas as agendas. Que para falar de natureza temos que reverenciar a história, a ancestralidade, os povos e o feminino. E que é preciso ocupar a política, porque sem política não há transformação nesta perspectiva.

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