*Reportagem produzida no dia do óbito de Niemeyer, busca de novo modelo.
Repercutir nas redes é a nova forma de lamentar. Em 15 horas, foram mais de 181mil menções sobre este rebelde de quase 105 anos
Um gênio se despede. No teclado, dedos bailam incessantemente, TAC, TAC, TAC. Não param de escrever linhas e mais linhas. Sua vida, suas obras. Banco de imagens do jornal, banco de imagens pago ou imagens com creative commons. Cadê as referências? Publicações, livros, documentários, procure no YouTube. Já falei sobre os amores? O que mais pode ser dito sobre ele? Que frases tocam mais o coração?
Todos escrevem o obituário de Niemeyer. Mas não hoje, no dia de seu falecimento. Os textos foram escritos em 2008, 2010, 2003, 2011 (quando o gênio fez 100 anos), quando adoeceu no começo de 2012… Esses textos estavam nas gavetas, aguardando sua publicação.
“Mas por que fazer isso?”, perguntariam. Insensibilidade? Falta de respeito? Lógica cartesiana?
Obituários podem ser pautas para disputar o primeiro clique, mas também podem ser verdadeiras homenagens aos que partem. Trabalho para peritos da arte de tocar o coração alheio. Com palavras doces, frases selecionadas, linhas cronológicas.
Em poucos minutos, cadernos especiais são publicados nos maiores jornais do país, com textos destacando sua importância na arquitetura mundial, escritos por especialistas e jornalistas especiais. Quantas laudas foram preciso para preencher as centenas de páginas produzidas em todos as publicações que circularam hoje no país. Quantas fotos? Quantas horas para produzir?
Corrida contra o tempo
Niemeyer morreu as 21h55, do dia 5 de dezembro de 2012. O Jornal Folha de S. Paulo publicou a notícia UM MINUTO após o ocorrido. O portal de notícias da Globo, publicou às 21h59. O New York Times não ficou atrás.
Então as 00h35 o diário britânico “Guardian”, publicou o obituário havia sido escrito pelo crítico de arquitetura do jornal, Martin Pawley, este, morto em 2008, e atualizado por um outro jornalista (Jonathan Glancey). Coisas que acontecem na arte de falar de vidas. Como lembra o jornalista Maurício Stycer, hoje em seu blog.
Quem dá a notícia antes?
TAC, TAC, TAC, TAC, TAC, TAC, TAC, TAC. Agora é mais rápido. Encurta o link, encontra a foto mais tocante. Encontra a foto do leitor em uma das inúmeras obras de Niemeyer pelo mundo. TAC, TAC, TAC. A nota da presidenta, o rosto da família triste, os depoimentos de tantos brasileiros. Reúne tudo, publicam nas timelines das redes sociais. Compartilhando uma, duas, cem vezes.
Com o jornalismo online, os meios de comunicação tradicionais disputam quem publica primeiro a notícia. Os leitores também se sentem na obrigação de noticiar em suas timelines. Seja com uma frase, uma imagem compartilhada, um retuite. É o luto virtual.
Niemeyer, 104 anos, morreu. Logo ele, que velou a própria filha de 82 anos, que se casou pela segunda vez com 99 anos, que tem mais de 600 projetos ao redor do mundo: Cuba, México, Líbano, Reino Unido, Congo, França, Senegal, Rússia, EUA, Venezuela, Chile, Portugal… Ele que era um grande admirador das curvas. Seu tesão pela vida, o prazer que proporcionavam seus projetos.
Números e imagens
Segundo o Topsy, em 15 horas da morte de Niemeyer:
– 15 mil imagens foram publicadas sobre o mestre.
– 96 mil tweets foram publicados mencionando seu nome
– 33 mil menções na rede – notícias e posts em blogs.
– 181 mil menções na internet sobre a morte do gênio desde ontem!
Ao mestre, deixo meu carinho ao seu legado. Tudo o que ele nos deixou, suas curvas, sua humanidade, seu comunismo. Seu exemplo. E seus pensamentos, que deixarei abaixo, junto com o link do documentário de Fabiano Maciel, “A vida é um sopro” (2007). Clique aqui para assistir.
“Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein”
“A forma nova, diferente que deve criar supresa, essa é a arquitetura. O importante para nós é haver liberdade, tem que ter magia, o diferente. A beleza é importante. (…) Se ficar preocupado só com a função, fica uma merda”
VIVA A REBELDIA, a vida fodona, o live fast and die depois dos 100 anos. Viva Niemeyer, que faz os mais reaças retuitarem suas frases cheias de humanismo e comunismo, hoje, pelas redes!

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