*Texto publicado na edição 45 da Revista Nossa América, 2012.
Tem certas coisas que permitem o tempo: horizontes, poltronas velhas de ônibus, estradas. O ponto de partida é Corumbá, Mato Grosso do Sul – estado que faz fronteira com a Bolívia e o Paraguai. No coração do Pantanal, eis uma das histórias de tantos mochileiros que cruzam a América do Sul pelo trem da morte.
Estavam arrumando suas coisas durante vinte minutos. Garrafa de água presa do lado de fora da mochila, ao lado do chinelo – usado para aliviar a pressão da corrida com o tempo.
Estamos em Puerto Quijarro, Bolívia, na estação onde parte às 11 horas o trem da morte.
Às 11h30, todos embarcam rumo à Santa Cruz de la Sierra. Somente ficam na plataforma eu, o fotografo, Jakko Lavonius, 31, e Eva Lara Versikansa, 23 – com suas mochilas arrumadas.
Chego falando em espanhol, eles me respondem com a fluência que eu não esperava. Jakko diz que são finlandeses. Quando me identifico como repórter brasileira, ele imediatamente começa falar português. Eva tem traços latinos, olhos negros. Conta que seu pai é colombiano e que ela foi viajar para conhecer suas raízes.
Quando digo que estou fazendo uma matéria sobre o Trem da morte, Yakko se antecipa: “este é o trem da vida, da conexão.”
A rota do trem
Na época da borracha, o território que hoje é o estado do Acre foi muito disputado entre Brasil e Bolívia. Por causa da impossibilidade de concluir a Madeira – Mamoré, foi construída em substituição a ferrovia Corumbá– Santa Cruz, prevista no Tratado de Petrópolis como indenização à Bolívia pela anexação do Acre, em 1904.
Durante a construção, a Comissão Mista Ferroviária Brasileiro-Boliviana, tendo como sede a Casa Wanderley & Baís, no porto de Corumbá, foi determinante para a implementação do Tratado de Roboré, nos fins da década de 1950.
Por meio desse tratado, pequenas povoações foram se desenvolvendo ao longo da ferrovia e começaram a se integrar ao mercado regional. Isso fez de Corumbá, Campo Grande e Santa Cruz de la Sierra pólos de desenvolvimento comercial.
Mas ditaduras reinantes na América Latina faziam com que ferrovias públicas como a ENFE (Empresa Nacional de Ferrocarriles del Estado –Bolívia) e a RFFSA (Rede Ferroviária Federal S/A – Brasil) ficassem reféns de esquemas de corrupção, que atrapalharam o desenvolvimento das atividades turísticas. Em 1990, até uma privatização questionável foi executada.
Além do comum
O turismo de aventura se desenvolveu nos anos 1970, com a descoberta da Rota dos Incas (Puno, Cuzco e Machu Pichu) e do Pantanal. Então, o trecho Corumbá – Santa Cruz de la Sierra ganhou o apelido de Trem da Morte– numa tentativa de sabotagem ao crescente turismo alternativo, já que os maiores usuários eram jovens mochileiros da geração hippie que descobriam novos horizontes e desnudavam a pobreza reinante em nosso continente, em tempos da censura política.
Se Puno, Cuzco e Machu Pichu eram responsáveis pelo transporte diário de mais de quinhentas pessoas em alta temporada, o mesmo diz do Pantanal, que só despertou para o turismo porque os usuários do trem, que não era diário do lado boliviano, eram obrigados a ficar até três dias em Corumbá. Assim o Pantanal foi descoberto e virou rota de turistas europeus, norte-americanos e japoneses, e mais tarde dos brasileiros.
Jakko e Eva Lara saíram há quatro meses da Finlândia. A primeira vez que Jakko andou no trem da morte foi quando tinha 19 anos, em 2000. Chegou pelo Rio de Janeiro e foi para Corumbá, Santa Cruz de la Sierra e Charazani. Ainda na Bolívia, fez um curso na Universidade Indígena Intercultural e um intercâmbio na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Jakko, que estuda antropologia das religiões, gostou tanto que já é a terceira vez que vem pra cá.
Nesta viagem, Eva o acompanhou. Os dois chegaram pelo Rio de Janeiro e foram para Manaus. Viajaram por seis dias, numa canoa até chegar à tríplice fronteira: Colômbia/Peru/Brasil. Aí foram para a Colômbia, Caribe, Cartagena.
Ligo a câmera para registrar, Eva salta à frente, animada, e logo fala: “A Finlândia faz fronteira com a Rússia e a Suécia. Tem influência dos dois lados. Um traço cultural muito forte no país, além da organização e disciplina, é a simplicidade e o respeito à natureza”, conta Eva, saltitando.
Quem caminha leva tempo para chegar a destinos diferentes, desafiando a falta de estrutura, o cansaço, vê além do comum: “Gosto de vir pra cá porque se vê povos originários. Gostei da comida, das pessoas, do clima”, conta Jakko, com os olhos brilhantes. Eles ajeitam a bagagem nas costas e vão em busca da próxima fronteira.
*Este texto fez parte da edição número zero da revista Fronteira Viva.

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