Revista Caros Amigos, A Cor da Fome é Amarela

*Publicado em Fascículo 10 “Os negros”  (Capa, julho de 2009)

Em 1983 a Rede Globo transmitia o caso-verdade “Quarto de despejo”, com a atriz Ruth de Souza representando Carolina Maria de Jesus. Em 1960, o livro de Carolina é lançado e faz um estrondoso sucesso sendo traduzido para 13 línguas. Em 2008, Carolina Maria de Jesus vira nome de biblioteca no Museu Afro Brasil, em São Paulo. Ouvimos o repórter Audálio Dantas para dizer quem foi essa Carolina?

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24 DE JULHO Como é horrível levantar de manhã e não ter nada pra comer. Pensei até em me suicidar. Eu me suicidando é por fim a deficiência de alimentação do meu estômago. E por infelicidade eu amanheci com fome. Os meninos ganharam uns pães duros, mas estavam recheados de pernas de baratas. Joguei fora e tomamos café. Botei o feijão pra cozinhar.(trecho de Quarto de despejo)

Quem nunca viveu sem ter um centavo no bolso pode não entender a dor da história de Carolina Maria de Jesus. Mas a verdade da pobreza é um soco no estômago e a cor da fome é amarela.

Foi em 1958. O então jovem repórter Audálio Dantas estava na favela do Canindé para falar da questão das favelas em São Paulo e da vida daquelas pessoas. “Eram 50 mil nas margens do Rio Tietê — algo simbólico, já que ficavam enterrados, sumidos na lama”, conta. Assim, Audálio encontra Carolina.

Com a reportagem, ele queria narrar o cotidiano daquela gente sofrida, mas encontrou alguém de dentro da favela que já havia feito isso. Carolina acontece na vida do repórter no terceiro dia de visita na favela.“Ela sabia da minha presença. Ela anunciou que ia registrar uma cena que estava ocorrendo no livro, aí quis saber que livro e pedi pra ela me mostrar. No barraco dela, tinha uma pilha de cadernos, onde estava registrado seu dia-a-dia. Já naquele momento, eu percebi que não tinha mais nada para escrever. A reportagem tava feita.”

Carolina Maria de Jesus tinha 49 anos, três filhos: José Carlos, João e Vera Eunice. Era catadora de papel. Seus escritos gritavam nas folhas de papel. Eram beleza, desespero e força. Escreveu 20 cadernos, contando seus dias, suas noites, suas leituras, o que comprava, como era difícil trabalhar em dias de chuva e ficar em pé sem ter comido.

Dias no Canindé

Audálio só precisou ler três ou quatro páginas dos seus diários, o suficiente para perceber que tinha ali um tesouro: “Primeiro, era a visão de quem vivia o problema. E segundo, porque era evidente e extraordinária capacidade de narrar, tinha um estilo muito próprio”. Carolina freqüentou até o segundo ano primário. Ela amava literatura.

Suas páginas começaram a ser escritas em 1955. Em 1958, Audálio pediu emprestado para ela um dos cadernos, para ele selecionar trechos de seu diário para a matéria, que foi publicada na Folha da Noite em 1958.

19 DE SETEMBRO …no frigorífico eles não põem mais lixo nas ruas por causa das mulheres que catavam carne podre pra comer

Na noite de Natal, seu filho passa mal, ela acredita a causa foi a melancia podre que ele encontrou perto do rio, onde os comerciantes jogavam seus produtos deteriorados e comeu: “Na minha opinião os atacadistas estão se divertindo com o povo igual aos Cezar quando torturava os cristãos. Só que os Cezar da atualidade, superam os Cezar do passado. Antes o povo era perseguido pela fé. E nós, pela fome. Naquela época, os que não queriam morrer deixavam de amar a cristo. Nós não podemos deixar de comer.”

No dia 31 de dezembro, ela conta que uma mulher foi dar a luz a um bebê na virada do ano. Seu filho nasceu morto. No dia 1º de janeiro de 1959, ela estava triste.

Igreja, democracia ou brigas entre marido e mulher. Jânio Quadros, a polícia e as brincadeiras de criança. A morte e o racismo cotidiano. Ela falava de tudo. Ora com força: “Adoro a minha pele negra, e o meu cabelo ‘rústico’. Eu até acho o cabelo negro mais educado do que o cabelo de branco”; ora com dor: “A minha (vida), até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.” Carolina explica que quando o limite da fome passa do insuportável, as coisas do mundo ficam em um tom só, amarelado.

Quando Audálio chegou na redação da Folha de S. Paulo com os cadernos, todos quiseram fazer uma vaquinha para publicar o livro. “Logo depois, fui convidado a trabalhar na revista O Cruzeiro e lá fiz outra matéria em cima desse diário, que fez uma repercussão maior, porque a revista era de circulação nacional. E aí que surgiram as propostas das editoras”, conta Audálio que editou aquelas páginas viscerais. Quando o livro foi publicado, a vida Carolina deu uma reviravolta.

Carolina Maria de Jesus estava com 49 anos, no auge do começo de algo diferente. Ela nasceu em 1914, na cidade de Sacramento, MG, onde passou sua infância e adolescência. Migrou para São Paulo quando as atividades econômicas passaram de extração de ouro para a pecuária, durante o esvaziamento das populações rurais, as migrações em busca de emprego e melhores condições de vida nas grandes cidades.

Carolina nasceu apenas 26 anos depois da abolição da escravatura. Para ela, escrever era uma arma, ela tinha consciência disso. “Ela era uma pessoa autoritária, forte. Com vontades de fazer grandes coisas”, diz Audálio.

Assim que o livro foi publicado e o sucesso editorial anunciado, Carolina virou uma heroína popular, as pessoas convidavam-na pra tudo. Desde jantares na casa da Dona Filomena Suplicy, a mãe do Senador Suplicy, até um convite feito pela revista americana Life para ir ao Rio de Janeiro, se hospedar no Copacabana Palace. “Eu tinha a pretensão de não deixar com que ela se perdesse, digamos assim. Mas, ela viveu o que ela tinha direito, viveu a glória, foi à coroação da miss negra, viajou para o exterior, Argentina, Chile, além de outros estados”, conta Audálio, que via algumas coisas que aconteciam com ela como uma atitude cretina da sociedade de consumo. “Era uma Cinderela. Eu acho que é uma visão de elite da coisa, ‘olha essa pobre menina, tão feinha, criada no borralho e de repente ela vai pro palácio’.”

Protagonista de sua história

Depois do sucesso do livro, ela saiu da favela às pressas. Não tinha uma casa pra ficar, mas isso estava começando a ser feito com os recursos que o livro estava dando. Então, sem comunicar a ninguém foi morar num quarto dos fundos de uma pessoa de Osasco. Ela tinha um motivo. As personagens do livro eram reais. “Ela escreveu no livro que ‘fulano de tal é bêbado’, ‘fulana de tal vive dando em cima dos homens’, quer dizer, evidentemente o sucesso do livro fez com que ela começasse a ser hostilizada na comunidade”, conta o repórter Audálio. Quando o caminhão foi pegar sua mudança, alguns moradores apedrejaram o caminhão.

Depois de um tempo, ela comprou uma casa no alto Santana, zona de classe média da capital. Foi o despejo da vida antiga, pra uma nova, em que ela era convidada a fazer livros de provérbios. A mídia tentava subverter aquela história tão potente e que revelava feridas abertas naquele Brasil em construção pelo luxo envolvente. E se de um lado apostavam na Cinderela brasileira, de um outro tinham as pessoas que não acreditavam que dela tivesse saído tal obra.

“O poeta Manuel Bandeira escreveu um artigo em que ele dizia que as pessoas não aceitavam que ela tivesse escrito por preconceito, como é que aquela negra favelada foi escrever isso, coisas poéticas maravilhosas nos diários dela”, conclui Audálio Dantas, hoje um senhor que tem guardado o que restou dessa história, um jornalista que teve a sensibilidade de ouvir mais que falar, que conviveu com Carolina até seu falecimento, em 1977, mesmo com as divergências e os conselhos nunca ouvidos. Carolina era força. Uma mulher protagonista da sua história.

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